InicioInfo“Portugal Querido"
“PORTUGAL QUERIDO” É UM LIVRO QUE RELATA A VIDA DOS EMIGRANTES PORTUGUESES NA ARGENTINA
O LIVRO CONTA-NOS HISTÓRIAS DE VIDA, DE QUEM EMIGROU EM ÉPOCAS DISTINTAS E SE INSTALOU EM TODO O TERRITÓRIO ARGENTINO: ALGARVIOS, MINHOTOS E SERRANOS CONSTRUÍRAM, NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX, UMA NOVA VIDA NUM PAÍS QUE ESTAVA, TAMBÉM ELE, A SER AINDA CONSTRUÍDO.





Mário dos Santos Lopes, 55 anos, contou com um “empurrão” do irmão, Victor, para começar a escrever o livro que foi uma verdadeira empreitada familiar, entre irmãos, filhos e genros. O resultado foi uma obra de 254 páginas com muitas histórias de emigrantes, algumas referências históricas da passagem portuguesa pela Argentina, participações de emigrantes lusos noutros países, vários textos sobre os clubes e associações dedicadas à cultura nacional e relatos de cantoras argentinas que se apaixonaram pelo fado. O fio condutor do livro é, contudo, a compilação das memórias das famílias que, deixando Portugal, encontraram um novo lar na Argentina.

A publicação inclui, entre outras, a história de Rosa Fernandes, professora de português em Villa General Belgrano, e a de António Monteiro, o famoso pintor que nasceu em Lisboa e que vive, desde há décadas, na cidade de Córdoba.

“Vivíamos em São Brás de Alportel… e o meu pai levava-me a passear todos os dias quando chegava do trabalho. Eu era a filha mais velha de três irmãos e de mais um ainda por nascer… De um dia para o outro, deixei de ver o meu pai e com quatro anos — e ele apenas com 23 — não podia entender o que tinha acontecido, nem para onde tinha ido. Ao ficarmos sozinhos, fomos viver para o campo, no sítio Dos Machados, com a minha mãe Gertrudes, grávida de oito meses. Ela teve de ir trabalhar, pelo que eu e os meus irmãos ficávamos sozinhos, quase todo o dia. Começaram a chegar as primeiras cartas. O meu pai pedia que o filho, se fosse varão, se chamasse Abel. Os dias passavam e eu só via cartas. Numa delas, ele dizia: ‘Yudith, neste momento, olhando as estrelas, vejo nelas o brilho dos teus olhos’, palavras que me ficaram gravadas na memória, apesar da minha tenra idade”, conta Yudith Rosa Viegas.

Assim começa a sua história, a de uma mulher que atravessou o oceano sem saber como era o pai que a esperava no outro lado do Atl"ntico. O destino desta família algarvia e de muitas outras famílias portuguesas foi recolhido por Mário dos Santos Lopes durante cinco anos.

Mário dos Santos Lopes, autor do livro, conta que na Argentina ganhou “uma enorme riqueza ao conhecer experiências muito diversas, a dor suprema do desenraizamento somado à falta de comunicação com a família que ficava para trás, tão longe, e a sensação de que não regressariam mais a casa.” Valoriza e sabe que o mesmo aconteceu com os leitores, “o sacrifício e a resignação do imigrante que vive nos piores lugares, aceita os piores empregos, a tentar passar despercebido para não ser marginalizado ou maltratado, apesar de a Argentina ter sido um país de portas abertas para todo o mundo”, refere.

Na Argentina, os pratos tradicionais, os clubes onde se reproduziam (e reproduzem) “corridinhos” e “viras minhotos” e os programas de rádio dedicados ao fado ajudam ainda a matar saudades de casa aos cerca de 17 mil cidadãos portugueses que estão inscritos na Embaixada Portuguesa, em Buenos Aires.

O livro “Portugal Querido” é mais um passo nessa ponte entre os dois países. Para que não se percam as histórias de todos os que, um dia, escolheram a distante Argentina para começar uma nova vida. Uma e outra vez.

[Fonte: www.orossio.pt]
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